um novo álbum foi feito.
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a new album was made.
a gravar. 18 de Maio, 2013.
Música de Transumância
A ideia de que somos aquilo que ouvimos é frequentemente repetida. Coexiste com outros truísmos bacocos, como somos aquilo que comemos, ou aquilo que fazemos. Somos o que somos: assim se concluem as grandes discussões filosóficas nas esplanadas do século XXI. Não me quero perder em exercícios estéreis sobre se a música do João Alegria Pécurto corresponde àquilo que eu sou (que aliás, nego saber). Surge-me, no entanto, como imediata a associação entre a dimensão espaço (o meu principal objecto de estudo quando visto o hábito do arqueólogo) e as paisagens sonoras do João cada vez que os seus discos tomam conta do espaço exíguo do meu quarto. A este respeito e sob a forma de apontamento, sem dúvida merecedor de um longo e mais profundo debruçar, julgo ser de fácil apreensão que esses discos, especialmente os dois de maior fôlego (Ambleteuse e Une Autre Mer) e agora estes últimos Isolamentos, remetem para uma intricada trama urbana. À semelhança de Richard Skelton, outro arquitecto-escultor da matéria sonora, João Alegria Pécurto convoca a ideia de lugar em cada dedilhar, em cada momento de silêncio entre notas. É pois nesses silêncios que a diferença entre estes dois músicos de espaço e de lugar, melhor se estabelece. Enquanto que o primeiro tem diante de si a paisagem aberta, como os páramos de Lancashire, João Alegria Pécurto habita a cidade, a casa, fazendo luz sobre a verdadeira essência da matéria arquitectónica. São as paredes e as janelas que enformam a casa, mas é o espaço vazio no seu interior a sua verdadeira essência (as ruas para a cidade). É nesse espaço interior que o João melhor se exprime, cantado a cidade reclusa enquanto perscruta uma hipótese de fuga. Sente-se que cada acorde na música do João, medita sobre uma qualquer possibilidade de encontrar um “lugar de silêncio”, “um outro mar” no meio de uma paisagem ruidosa e fechada. Resisto aqui a invocar a ideia de labirinto. Neste último álbum, por exemplo, é notório um conhecimento profundo do contexto que relega o poder da forma. Mais facilmente encontramos uma paisagem labiríntica em Skelton do que em João Alegria Pécurto. João Alegria Pécurto conhece a cidade que calca. Canta-lhe a gesta do movimento, da reclusão, dos rastos que sobrevêm nos passeios depois dos milhares de passos diurnos. Conhece-a demasiado bem, por isso, não lhe faz a arqueologia do lugar como Skelton, não o historiografa, apenas o mapeia. E mapeia-o com a ideia de um roteiro transumante. “Trans” aqui também de transcendência, visto que no tom da música se sente essa ideia de sair do âmago da cidade, no caso Lisboa, procurando uma outra dimensão, um outro território para descansar o corpo. As neves e as chuvas que castigam pastores e rebanhos, são as buzinas, a cacofonia da cidade, a proximidade de homens tão perto uns dos outros mas tão distantes e João utiliza a sua música como uma espécie de transumância metafísica levando-nos com ele. Não é raro permitir-me a esse deslocar do corpo, partindo do espaço exíguo do meu quarto. Procuro despir-me da cidade, das casas, dos quartos carregados de um nebuloso génio do lugar. Parto nesse périplo de fuga para aliviar o desconforto dessa contemporânea convivência, aliviada ao lado de homens como Richard Skelton e João Alegria Pécurto que nas suas rotas transumantes deverão certamente descansar sob o tecto da mesma branda. Parto acompanhado do dedilhar de cordas, do tanger do arco, e sobretudo do silêncio entre notas, silêncio que magistralmente propõe ao corpo o calcar de novas rotas.
André Tomé
devir
15 de Maio | 22h | Bartô
Bruno Sousa Villar (poesia)
João Alegria Pécurto (guitarra)
Capriccio Lisbonino
Invenzioni of Unseen Landscapes for Lisboa
a project by Bárbara Maçães (http://letatbrut.tumblr.com/)
Capricci are “pieces of poetry, music, and painting that succeed more by the
force of imagination than by observation of the rules of art and which have
no clear appelation.” Without immediate recourse to the external models of
nature, although never quite independent of such models, a capriccio is defined
by the process of “trovare cose non vedute” (Piranesi), a measure of the artist’s
inventiveness in his ability to create, or discover, things never before seen. As
a matter of fact, in the vocabulary of Renaissance artistic discourse, it carried
connotations of licence and freedom from the rules of art, namely from the
decorum of imitation, but also in a sense of a certain indulgence in one’s own
imaginative faculties - sfolgare i suoi capricci.
“Capricciosi are those whose actions follow ideas that differ from the ordinary
ideas of others, but who shift from one idea to another of the same kind; and,
by way of analogy, ideas in painting, in music, or in other media that appear far
from the ordinary are called capricci.”
Asleep at his drawing table, having dropped his drawing implement, Goya’s
draftsman suffers from that cervello capriccioso that is the source of imagination,
that human faculty which arises when reason is asleep/dreaming (ambivalence
weightened). His series of Caprichos are a collection of images beyond reason,
forms imagined, pulled from the darkness of an irrational mind. They are
creatures derived of furious diabolic inspiration and are simultaneously cause
and effect, motivation and result.
Capriccio is in effect an illegitimate genre in search for a proper name. It is “un
déreglement d’esprit”, and it stands beyond norm and measure. The term itself
does not denote a specific technique or structure, nor a particular form, but
rather an attitude/practice, and it displays a “general disposition toward the
exceptional, the whimsical, the fantastic and the apparently arbitrary.”
há quem me diga que edito muito material. eu não acho que edite o suficiente.
há tanto por fazer.